Sabedoria

Ayurveda

O termo ayurveda, em sânscrito, tem como significado “a ciência ou o conhecimento da vida“. Esse campo de estudos, que também está nos Shastras, constitui-se como uma sabedoria milenar para o tratamento dos mais diversos males, desde um simples resfriado até distúrbios psicológicos, sociais, éticos e filosóficos do ser humano e do meio que o envolve.

Em minhas consultas astrológicas, quando falo em medicina ayurvédica, trabalho principalmente com o conceito de doshas, ou tipos de constituição física e mental, que são basicamente três, vata, pitta e kapha, e estão conectados com os elementos materiais (éter, ar, fogo, água e terra), com os três modos da natureza material (a bondade, a paixão e a ignorância) e com os seis tipos de sabores (picante, salgado, amargo, doce, ácido, adstringente). Na análise de um mapa astral, procuro detectar como os sete dhatus ou tecidos do corpo (plasma, sangue, músculos, gordura, ossos, medula e nervos e os tecidos e fluidos reprodutivos) estão sendo afetados pelo doshas da pessoa.

Todos nós temos, em nossa natureza, os três tipos constitutivos, em proporções diferentes e em estado de equilíbrio ou desequilíbrio. Vata é o biotipo relacionado ao éter e o ar; pitta é o biotipo relacionado ao fogo e à água; kapha relaciona-se à água e à terra. Kapha rege a parte superior do corpo (cabeça, pescoço, tórax, peito, porção superior do estômago, tecidos gordurosos e juntas); pitta rege a parte intermediária do corpo (peito, área umbilical, estômago, intestino fino e glândula linfática); vata rege a parte de baixo do corpo (região pélvica, cólon, bexiga, sistema urinário, coxas, pernas, braços, ossos e sistema nervoso). Os três doshas coexistem em todos os seres vivos.

Espante os Males

Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, diz, no Bhagavad-Gita: “Entre as vibrações, eu sou o Om transcendental. Dos sacrifícios, eu sou a japa”.

mantra ocupa o lugar mais importante na disciplina espiritual védica, e a japa é a repetição dos nomes dos deuses. Quando o guru iniciador tem poderes espirituais, estes são transmitidos ao discípulo através de um mantra. Se a pessoa repete o mantra continuamente, invoca-se o poder que ele nomeia e alcança-se o autoconhecimento e a autorrealização. E isso só é possível por meio dos mantras: nem o estudo dos Vedas, nem a prática da meditação ou de austeridades têm esse poder.

No início, o exercício consiste em se concentrar e meditar na entoação do mantra. Com a prática contínua, outros estágios podem ser alcançados. Uma atitude de humildade, desprendimento e entrega ao deus deverá acompanhar o cantar da japa – ou você estará apenas entoando uma canção. O processo deve ser repetido até que se torne natural. Mesmo quando estamos trabalhando, devemos exercitá-lo.

Segundo as escrituras védicas, a forma mais eficaz de cantar mantras é utilizando um rosário de 108 contas chamado japa mala. Ela serve para que possamos contar o número de repetições das palavras sagradas. Além disso, como a mente tende a se dispersar durante o processo, a japa mala lhe possibilita uma concentração unidirecional e ajuda a conduzi-la de volta à prática e ao objeto de meditação. Seu uso exige uma atitude de reverência: é preciso, antes de empunhá-la, lavar a boca e o corpo e nunca fazê-lo com a mão esquerda. Ela também não deve ser mantida em lugares sujos, nem tocados pelos pés.

Toda japa mala tem 108 contas e mais uma, chamada de Monte Meru, ou Morada dos Deuses, que serve como um guia para marcar o início e o fim da prática. Em nenhuma hipótese devemos passar por cima do Monte Meru, mas, sim, voltar para o início do rosário ao encontrá-lo, de forma retroativa. Dessa forma, cantamos os mantras em torno do Monte Meru. Ele representa o mestre – e não se deve passar por cima do mestre em nenhuma circunstância.

O ritual de recitação de um mantra deve seguir certas metodologias e ser preenchido por algumas atitudes. Precisamos, por exemplo, procurar locais tranquilos e limpos, eleger horários auspiciosos e entoar os cânticos suavemente, como uma música prazerosa. Devemos também nos desligar das atividades materiais e nos concentrar totalmente na recitação, começando pela prática de um pranayama, que permitirá a união de mente e prana e o controle dos pensamentos. Gentileza, paciência, tolerância, pureza de palavras, atos e ideias, sinceridade na ação e fé na repetição dos mantras, de forma sistemática e sob nenhuma pressão, trarão muito mais eficácia ao exercício.

O desenvolvimento do poder do mantra se consegue por meio da prática diária. Pouco a pouco, ele se torna uma ferramenta viva de transformação da mente. Essa disciplina espiritual capacita o praticante a encontrar a solução de seus problemas, alcançar a paz mental e reduzir seu estresse. Mas nunca se deve fazer uma promessa que não se possa cumprir: só pode aceitar a iniciação num mantra aquele que se compromete a manter seu voto.

Yoga: A Re-integração

A palavra yoga vem do termo em sânscrito yuj, que significa unir. Yoga é a ciência que nos ensina o método de unir nossas partes num todo, nosso ser com o Universo.

A meta do yoga é, assim, estabelecer conexões, por meio do controle das funções da mente. O praticante de yoga, usando diferentes técnicas respiratórias (pranayamas), posturas (ásanas), posições da mão (mudrás) e cânticos rituais (mantras), pode purificar os canais de fluxo de energia (nadis) do seu corpo, aumentar sua concentração, aprimorar sua prática de meditação e estabelecer uma maior conexão entre os centros de energia de seu corpo (chacras), e entre este e o corpo universal. O yoga, portanto, ensina a como se alimentar melhor, como evitar doenças, como controlar as emoções, enfim: a como ter uma vida mais saudável, feliz e integrada.

Inspire, Expire

Em qualquer situação, você pode praticar alguns exercícios respiratórios do yoga, chamados pranayamas, e ninguém precisa perceber o que você está fazendo… Faça a qualquer momento: eles só trarão benefícios!

Sente-se em posição confortável. Inspire pela narina esquerda, bloqueando a narina direita com o dedo polegar da mão direita. Mantenha o ar bloqueado e depois expire lentamente pela narina direita, bloqueando a narina esquerda com o dedo mínimo da mão direita. Mantendo a narina esquerda bloqueada, inspire lentamente, enchendo seu pulmão, depois o diafragma e depois a barriga de ar. Bloqueie a narina direita e expire lentamente.

O ar deve necessariamente entrar, permanecer e sair de maneira lenta e sem ser forçado. Não pode haver dor e nem pressão sobre os ouvidos, olhos, ou qualquer outra parte do corpo. Quando você inspira por uma narina, deve expirar pela outra. O tempo que o ar permanecer dentro de sua barriga deve ser o maior possível, dentro de sua possibilidade (se sentir dificuldade, ou tiver algum problema de saúde, como pressão alta, não faça retenções, ou não pratique sem a orientação de um especialista).

O número de pranayamas ideal é de pelo menos trinta vezes para cada prática. Dessa forma, e com uma prática diária, de pelo menos quatro vezes ao dia, todos os canais de energia tornam-se limpos e purificados. O suor oriundo desta prática deve ser esfregado ao corpo, quase como um bálsamo.

Quando o pranayama é praticado correta e regularmente, doenças como asma, tosse, gripe, dor de cabeça, dor de ouvido, problemas nos olhos e todos os incômodos de origem respiratória são erradicados. A pele ganha brilho e o intestino trabalha melhor. Pratique! Sua saúde agradece.

Planetas e Pedras

Por toda a atmosfera, há diversas energias, raios, cores e frequências espalhados e dispersos, emanados principalmente pelo Sol, pela Lua, pelos planetas e por milhares de constelações. As gemas preciosas têm o poder de capturar e direcionar essas forças. Ao descobrir, por meio do mapa astrológico, quais planetas atuam em sua vida e de que modo o fazem, é possível indicar a pedra ideal para potencializar suas qualidades ou minimizar possíveis efeitos maléficos de algumas configurações. Outra maneira simples de prescrever o uso de pedras preciosas é indicá-las de acordo com o ascendente.

Cada graha possui uma pedra principal a ele relacionada, que pode ser substituída por uma ou duas outras espécies de pedras um pouco mais baratas ou mais disponíveis no mercado. A pedra correspondente ao Sol na astrologia védica, por exemplo, é o rubi, mas ele pode ser substituído pela granada vermelha. A substituta da pedra de Mercúrio, a esmeralda, é a turmalina verde ou jade. A da pedra de Vênus, o diamante, é a safira branca. E assim para cada planeta. Evidentemente, uma pedra substituta terá apenas uma pequena fração do poder de captar e transmutar a energia, enviando-a aos chacras, mas é melhor usar uma pedra substituta de boa qualidade do que uma pedra principal de baixa qualidade. Quanto mais puras e brilhantes forem as gemas, maiores e melhores serão os efeitos de seu uso. Nunca use pedras mal lapidadas, sem brilho, rachadas, com manchas ou defeitos. Quanto mais perfeita for a pedra, melhores os resultados. Conheci algumas pessoas que adquiriram pedras falsas ou sintéticas, confeccionaram anéis e depois reclamaram que a gemologia não funcionava! A sugestão é adquirir pedras que venham acompanhadas de certificados de origem.

Uma vez compradas, as pedras devem ser incrustadas em anéis ou pendentes em datas propícias, para se capturarem as energias benéficas do momento. Além disso, antes de receitar qualquer “medicamento”, inclusive as pedras, é preciso analisar que efeitos colaterais eles podem produzir. Uma mesma gema, por exemplo, pode aprimorar a capacidade intelectual de alguém, mas vir a trazer prejuízos financeiros, atritos com as pessoas ou até desorientação do consulente em relação à sua missão de vida (dharma). Assim, é preciso analisar cuidadosamente todos os aspectos do mapa astral antes de receitar qualquer procedimento.

As gemas preciosas também podem ser utilizadas com finalidade terapêutica em aplicações diretas sobre os chacras, durante sessões de algumas horas. O efeito é sempre relaxante e revigorante. Basta identificar os sintomas a serem tratados e aplicar as pedras nos centros de energia a eles equivalentes. Cada tipo de pedra atua sobre sintomas físicos e psicológicos específicos, relacionados ao seu planeta regente e ao seu campo de ação. A pérola, por exemplo, auxilia nos problemas estomacais e nos casos de melancolia, depressão e falta de equilíbrio mental; a safira amarela, nos males do fígado e pâncreas, artrite e secreções nas vias aéreas, como também em questões de negócios e perdas financeiras. E assim por diante: a lista é grande!

Em todo procedimento védico, o uso das pedras deve ser precedido de um ritual de purificação, que envolve a recitação dos mantras de invocação de seus planetas regentes. Além disso, elas devem estar em contato com partes específicas do corpo. De forma geral, a mão direita é solar e relaciona-se aos planetas que estão fortes no mapa de uma pessoa; a mão esquerda é lunar e deve ser usada caso a pessoa precise equilibrar alguma energia. Normalmente, não se usa o dedo polegar na aplicação das pedras.

Outras informações importantes: não se deve, em hipótese alguma, usar juntas pedras incompatíveis, como diamante e rubi, rubi e safira azul, rubi com hessonita, pérola com diamante, pérola com olho de gato, esmeralda com coral vermelho, esmeralda com pérola, diamante com safira amarela, entre outras combinações muito perigosas. E cuidado: pedras como o rubi, a safira azul e o olho de gato são muito potentes e devem ser usadas terapeuticamente somente sob aconselhamento de um astrólogo perito.

Os planetas têm ouvidos

O colossal mecanismo universal tem regras de funcionamento, e a astrologia védica é a ciência que decifra os símbolos e sinais que o Universo emite a cada instante. Analisando as diferentes constelações que estão no céu e a posição que os planetas ocupam, é possível prescrever quais medidas serão mais eficientes para cada indivíduo em suas condições específicas. Para a maioria dos ocidentais, as metodologias védicas são complexas e podem parecer ortodoxas, mas há milhares de anos elas vêm mostrando sua eficácia.

Para cada graha ou planeta que, como vimos no capítulo 3, orbita dentro das constelações zodiacais, há um mantra. Os Vedas preveem que podemos nos unir e harmonizar com a energia dos planetas por meio da entoação desses cânticos sagrados. Yoga, em sânscrito, quer dizer união. Por isso, esse procedimento é chamado de graha-mantra-yoga.

Entre os cânticos sagrados dedicados aos planetas, há os beeja mantras (pronuncia-se “bija”), os gayatris e os stotram mantras, todos em número de nove, um para cada graha. Cada um desses tipos de mantra tem características e funções diferentes. Os graha beeja mantras, por exemplo, chamados de som raiz ou semente, são aqueles que fazem germinar a energia latente da divindade ou planeta que evocam. Servem para unir mente e prana (energia vital), direcionar a atenção para a meta e auxiliar no despertar dos pontos energéticos do corpo (chacras). Devem ser cantados em silêncio, juntamente com a respiração, no início do graha-mantra-yoga, por um determinado tempo ou número de vezes. Se levarmos em consideração que Deus está no coração de todos, então o objetivo do beeja é fertilizar mente e corpo e direcionar nossos esforços. Já os nava graha gayatris correspondem ao som que rompe todas as esferas de existência e conecta o indivíduo com as energias do planeta. Geralmente, são recitados por três vezes, antes de se iniciarem os graha stotram mantras.

Os graha stotram são os mantras mais importantes para minimização de efeitos maléficos dos planetas em determinadas configurações astrológicas. São recitados, ou para satisfazer grahas em debilidade na carta astral, ou para potencializar os que estão exaltados. Também são usados stotram relacionados à fase da vida que as pessoas atravessam (crises financeiras, mudanças nos relacionamentos, nascimento de filhos etc.). Stotram significa invocação, ou hino, e esse tipo de mantra, em geral, não é composto apenas de algumas sílabas mas de frases ou versos mais extensos. Não é segredo que repetir algo inúmeras vezes acaba por tornar aquilo realidade. Afinal, o som é a energia que deu início ao Universo.

Os graha stotram prescritos para cada caso devem ser realizados num prazo máximo de quarenta dias, e há uma metodologia para sua recitação. Para eles, o número mínimo de entoações é de 108 a cada vez, ou uma volta de japa mala. Com menos do que isso, seu efeito é praticamente inócuo. Além disso, antes de começar esse graha-mantra-yoga, deve-se receber o mantra de uma pessoa qualificada, praticar a caridade ao sacerdote e iniciar-se a japa no dia e período apropriados, de acordo com o planeta a quem a prática será endereçada. Nesse processo, os mantras podem ser cantados de 4.000 a 23.000 vezes!

Uma jóia de planeta

O poderoso demônio Vala havia vencido Indra, o rei dos deuses, e se tornado um regente tirânico que oprimia toda a hoste dos deuses. Estes, então, por meio de um ritual, enganaram Vala e o mataram, esquartejando seus vários membros. À medida que o corpo de Vala estava sendo desmembrado, cada uma e suas partes ia se transformando em criativas sementes de pedras preciosas.

Nesse momento, um rumor fortíssimo foi ouvido no Universo, e todos os seres celestiais ficaram ansiosos para possuir uma parte dessas sementes. Tentaram escondê-las, mas armaram tamanha confusão que as ondas de choque de suas carruagens celestiais jogaram as sementes sobre o planeta Terra: algumas em rios, outras em montanhas, outras em florestas, e outras, ainda, no mais profundo dos oceanos. O sangue de Vala foi levado pelo Sol e se transformou em sementes de rubi. Os dentes de Vala caíram nos mares, assumiram o lustre da Lua e entraram nas ostras. A pele de Vala foi transformada nas safiras amarelas, que caíram sobre as montanhas próximas ao Himalaia. As unhas de Vala foram transformadas em hessonitas, e os ventos as levaram para o Sri Lanka e a Birmânia. A bile de Vala foi tomada por Vasuki, a grande serpente-rei, quando Garuda, o deus-pássaro, bloqueou sua trajetória com as asas e Vasuki, assustado, deixou as sementes escaparem. Fragmentos dos ossos de Vala se dispersaram por várias partes, e cristais de diamante germinaram, em múltiplas cores. O grito de Vala foi transformado em olho de gato, mergulhou no oceano e impregnou as nuvens. Os olhos de Vala se tornaram sementes de safira azul, espalhando-se pelo Sri Lanka. Os intestinos de Vala foram tomados por Vasuki e, levados às profundezas marinhas, tornaram-se corais vermelhos. A gordura de Vala tornou-se quartzo. Dos braços e outras partes germinaram pedras semipreciosas.

Gemologia

As pedras preciosas exercem um poderoso fascínio sobre as pessoas e, desde o início da história humana, têm sido usadas como adorno por nobres e reis. Mas, além dos efeitos estéticos, os antigos sábios também estudaram os efeitos dessas pedras, suas relações com o corpo humano, as emanações que suas cores luminosas exercem, como podem ser absorvidas e que impactos promovem sobre a vida de seus possuidores. Aconselhados por seus ministros e sacerdotes, os monarcas das cortes antigas mantinham em seus tesouros as gemas mais perfeitas, para evitar crises e perdas e incrementar a longevidade. Em todos os povos há histórias sobre guerras travadas pela posse de joias fabulosas.

Por isso, a gemologia, ou ratna vidya, nos textos védicos, ciência cuja finalidade é identificar a natureza das gemas e classificá-las, pode ser muito eficaz. Segundo esses estudos, as pedras guardam relações com os principais centros de energia do corpo (chacras), que também possuem vínculos, em diferentes graus, com as sete cores primárias. O corpo humano é uma combinação de minerais e elementos químicos. Quando alguém está debilitado em relação a uma cor ou com um excesso de determinada cor, esse desequilíbrio gera enfermidades e outros inúmeros problemas em vários aspectos da vida. Nesses casos, a eficácia da gemologia reside no fato de cada pedra preciosa ser uma fonte permanente de diferentes raios coloridos. Quando usadas corretamente, as pedras aumentam o poder, a riqueza e a prosperidade, incrementam a saúde e afastam doenças e perigos.

Os Vedas contêm acuradas informações sobre as qualidades metafísicas das gemas preciosas e explicam como utilizar seus poderes místicos sutis. O mapa astral védico é capaz de fornecer informações sobre quais pedras são favoráveis ou desfavoráveis a cada caso e como elas podem ajudar a remover obstáculos em todas as áreas da vida, seja multiplicando um poder já existente ou aplacando os efeitos maléficos de um planeta desfavorável numa determinada configuração astrológica.

Rituais e Poojas

O primeiro método descrito pelos antigos sábios para fortalecer planetas fragilizados num mapa ou equilibrar configurações astrológicas maléficas são os rituais. Mas devo dizer a você que, no Ocidente e especialmente no Brasil, conheço poucas pessoas que conseguem realizar um ritual védico com perfeição. Seguir as disciplinas (sadhanas) exige estudo, dedicação, perseverança e, às vezes, até um pouco de coragem. Além disso, os rituais precisam ser realizados em momentos especiais e específicos, e raros são os ocidentais que detêm um conhecimento suficientemente profundo da astrologia védica para saber quais são eles. Por isso, os mestres advertem: se você não sabe como realizar os rituais védicos corretamente, não os faça sem orientação. Você poderá despertar energias que dificilmente poderão ser reenviadas aos locais de onde foram invocadas.

Feita a advertência, falemos um pouco dos rituais. Em todas as religiões conhecidas, as atividades sagradas são acompanhadas de ritos e cerimônias. Em sânscrito, essas atividades são nomeadas como Havan, Homa, Yagya ou Agni Hotra, de acordo com o tamanho e a importância do ritual. Essas palavras se referem basicamente à iluminação pela luz do fogo sagrado, já que, na cultura védica, o fogo é a testemunha de todos os rituais.

Praticar os rituais é como plantar uma semente: tomamos a vida nas mãos e a fazemos germinar. Os ritos védicos são uma das únicas formas de alcançar os deuses, pois criam um espaço sagrado que invoca a presença das divindades e se torna um local de catalisação das transformações pessoais. Utilizando a metodologia descrita nas milenares escrituras sagradas, podemos conseguir os favores divinos. Citando Lavoisier, “na natureza nada se perde, tudo se transforma”. Quando se oferece uma oblação ao fogo, o objetivo é transmutar as oferendas: elas se transformam num aroma que percebemos de longe e que refresca o ar, destruindo as impurezas.

Para praticar os rituais, é preciso purificar os pensamentos, o corpo físico e o ambiente. É o mesmo que acontece em relação à poluição da água e do ar, que traz doença e dor: como conseguir a saúde e a felicidade dos rituais sem corpo puro e mente limpa? Por meio de posturas, gestos (mudras) e intenções, transmitimos nossas mensagens e desejos para o Supremo Senhor, destinatário de todos os sacrifícios, e unimos o presente momento ao reino dos deuses.

Uma cerimônia de fases

Como todo ritual, os poojas são realizados em algumas etapas, que devem ser seguidas com atenção. A primeira fase inclui as atividades de preparação, como a higiene física (deve-se tomar banho, vestir roupas limpas e fazer marcas sagradas pelo corpo) e a limpeza e preparo da área do ritual. Afastam-se os móveis desnecessários, e todo o local é purificado com incensos (ou estrume de vaca seco queimado) e com a água de rios sagrados. A decoração é feita com folhas de árvores auspiciosas (mangueiras, bananeiras) e com guirlandas de flores perfumadas. Potes de água devem ser colocados nas oito direções. Bandeiras são penduradas, e figuras geométricas são desenhadas no chão. O local tem de ser coberto. Em seguida, reúnem-se lamparinas de cânfora, manteiga clarificada (ghee), velas, flores, frutas, plantas e ervas sagradas e vários tipos de comida, e selecionam-se os utensílios para o ritual.

Todas as pessoas que forem participar da cerimônia também devem se purificar, minimizando seus vínculos com a matéria e fortalecendo a mente. Há algumas maneiras de fazer isso: não comer corpos de animais mortos; não se intoxicar, por meio do uso do álcool ou de outras drogas; evitar a raiva, o desejo sexual e a cobiça de objetos materiais; não jogar nem apostar; e evitar a prática de sexo alguns dias antes da cerimônia. Tudo que possa nublar a mente e a consciência, ou que cause a perda de fluidos corporais, deve ser evitado. A mente é o elemento mais importante do ritual. Se ela está impura, todo o processo é inútil, e os métodos de limpeza física são apenas auxiliares da purificação mental. Para realizá-la, utilizam-se técnicas de respiração (pranayamas), meditação e mantras. Alguns mantras têm relação direta com as ações específicas de cada pooja. Outros, com o objetivo do ritual. Em todos os casos, eles devem ser minuciosamente entoados, em palavras, melodia e pronúncia, para os resultados desejados surgirem e para que as energias do ritual sejam ativadas de forma segura.

Palavas Sagradas

Nas cerimônias védicas, todo ato deve ser santificado com um mantra. Mantras são cânticos sagrados. Não basta compreender o significado de um mantra ou apenas repeti-lo: é preciso carregá-lo de intenção. Também não importa quão poderoso seja um mantra: se a pessoa não o entendeu ainda, se ele não foi claramente explicado ou se o praticante o recita mecanicamente, sem atenção, não surgirão benefícios. Dizem que todo mantra deve ser cantado como o bebê chora para a mãe: para chamar a atenção, com desespero!

Sem dúvida, uma pessoa que recitar determinados mantras poderá incrementar seu progresso, mas não se podem esperar milagres da noite para o dia. Somente depois de muita prática diária é que se consegue elevar o espírito e estabelecer uma comunicação com os deuses. Também não se devem recitar mantras apenas quando a situação está ruim, ou quando alguém querido cai doente. O objetivo dos mantras é limpar carmas negativos e atrair efeitos benéficos. Mesmo pessoas que agem de forma extremamente destrutiva conseguem reduzir a intensidade de seus problemas e aumentar sua força pessoal com a prática de entoar mantras e de realizar adorações. Aos poucos, o praticante vai conseguindo encarar os obstáculos com coragem, confiando em seu poder de superá-los.

Toda a vida espiritual se inicia quando recitamos os mantras védicos. Segundo os Vedas, os mantras nos livram da morte e das dificuldades quotidianas, permitem nossa união com as forças divinas e nos possibilitam a compreensão maior de que todas as formas no Universo são manifestações do mantra da criação, o Om. Assim como o vento remove as nuvens, a repetição dos nomes dos deuses nos concede entendimento sobre todas as energias e maestria sobre as forças da natureza. Não existe diferença entre o nome e a forma dos deuses. Até mesmo Brahma, o criador do Universo, medita nos mantras para sua autorrealização. Mantras são como sementes: se regadas com devoção e amor, tornam-se um jardim que floresce.

Na Índia, diversos tipos de adorações e mantras são adotados, dependendo da região. Alguns rituais mais complexos duram vários dias, mas há outros, bem simples, em que se utilizam apenas leite e açúcar, velas, incenso e comida pura; são feitos com muita devoção e sinceridade de propósito. Com tais ingredientes, as chances de sucesso são enormes.

Agni, o deus do fogo

Agni, o deus do fogo, é considerado o embaixador do Senhor Supremo. Por isso, ele é a testemunha de todos os rituais. O fogo deve ser estabelecido no kunda (bojo ou recipiente ritualístico), que deve ser colocado num local livre de itens impuros. O kunda pode ter vários formatos e representa a estabilidade do coração.

O solo onde sua estrutura permanece deve ser primeiramente santificado com a água de rios sagrados; depois, um quadrado de tijolos é montado. Eu, pessoalmente, realizo rituais em uma pirâmide de cobre invertida, que representa o kunda e é uma miniatura de um local védico de rituais – uma forma de “transportar” esse local de rituais para outras regiões.

Nos poojas védicos, os pedaços de madeira são as orelhas do fogo, a fumaça são as narinas, as chamas finas são os olhos, as brasas são a cabeça e as grandes chamas são sua língua. Os Shastras recomendam que se ofereçam as oblações para a língua de Agni. Durante a cerimônia, vários nomes de Agni são entoados, e não se deve lançar nada ao fogo que não seja permitido.

A mente atenta e forte

Quando praticamos um pooja, focalizar a mente no objetivo é a chave do sucesso. Os rituais serão tanto mais poderosos quanto envolverem a totalidade de nosso ser. O segredo é não operar com a consciência material, que estará presa à organização, à apresentação da cerimônia ou à memorização dos cânticos, mas, com a intenção na meta do ritual, trazida do mais profundo de nossa consciência, devemos invocar o Deus que está no coração.

A forma de pensar e agir num ritual imprime fortemente na alma a criação de um padrão de hábitos muito semelhante aos mecanismos de autorresposta instintiva. Por meio da associação e da memória, a pessoa repete tal padrão até que ele se torne conclusivo e constante no quotidiano. Após essa convicção ser alcançada, a pessoa pode facilmente discriminar entre matéria e espírito e, com certeza, alcançará benefícios nos dois campos. Embora seja preciso discernir entre o efêmero e o eterno, os rituais védicos também trazem resultados materiais, se os participantes assim o desejarem. Todos devem entender que o ritual e a fé caminham juntos. Do contrário, todo rito será mecânico e ineficaz. Além disso, qualquer que seja o desejo do praticante, os resultados serão responsabilidade sua. Tudo o que se deseja virá como retorno. Lembre-se: é cármico!

Além disso, para se obter sucesso com a prática de um pooja, outra condição essencial deve ser satisfeita: é preciso realizá-lo em datas e horários auspiciosos. As constelações celestes regem as diferentes energias do dia e, por isso, é necessário saber quais energias estarão presentes em determinados momentos e verificar se elas são compatíveis com as finalidades do ritual. Sem a presença dessas energias, não há como obter os resultados esperados. Isso explica por que alguns rituais nos quais as pessoas se aplicam e se esforçam não atingem seus objetivos. Pense de novo na semente: será que ela germina, se plantada fora do tempo?